terça-feira, 14 de agosto de 2012

Festa de Nossa Senhora dos Remédios - Fundão do Cintra


No primeiro final de semana do mês de agosto, celebraram-se as festividades religiosas em honra a Nossa Senhora dos Remédios. A comunidade de Fundão do Cintra, área rural do distrito Santo Antonio do Salto, mesmo com o processo de restauração da capela em andamento, organizou e manteve o brilho da manifestação cultural.  

A tradição passada por meio da oralidade, de pais para filhos, incentiva as famílias locais a serem os principais agentes de organização e conservação da capela. São também os responsáveis pelas doações que ajudam a concretizar a festa, inclusive de cabelo, para ornar a imagem da santa. Essas ofertas para os fiéis superam a simples ideia de realizar a festa, mas possuem sentido devoção, de culto a Nossa Senhora dos Remédios, pois, estabelece uma relação de aproximação entre devoto e objeto de devoção, atitudes que demonstram agradecimento por graça alcançada ou pedido de intercessão por uma graça esperada.

A confecção de enfeites para a capela, para o caminho da procissão e para as bandeiras de Santo Antonio e Nossa Senhora dos Remédios, e até mesmo a reforma da Capela iniciada no ano passado, são exemplos de conservação do bem cultural, afinal, como eternizou Aluízio Magalhães, “a comunidade é a principal protetora de seu patrimônio”. Nessa perspectiva, lembramos que a Festa e a Capela são atualmente Patrimônio Cultural do Município de Ouro Preto; a primeira tornou-se bem imaterial registrado (2009), e a segunda, bem material tombado (2010). Desta forma, são acompanhadas com o intuito de diagnosticar possíveis problemas e se necessário estabelecer plano de ações de intervenção para salvaguarda do patrimônio cultural.

Sendo assim, acompanhamos as festividades deste ano e registramos através de fotografias o evento:

Oração do Terço na residência do Edivânio, local de envio das bandeiras de Santo Antonio e de Nossa senhora dos Remédios 

Procissão 

Chegada à Capela de Nossa Senhora dos Remédios para celebração da Santa Missa

Celebração da Missa na Capela

Bandeiras de Santo Antonio e Nossa Senhora dos Remédios

Coroação da imagem de Nossa Senhora dos Remédios

Imagem de Nossa Senhora dos Remédios após a coroação

Benção das bandeiras


Levantamento dos mastros com as bandeiras





Festa de Nossa Senhora dos Remédios - Fundão do Cintra


No primeiro final de semana do mês de agosto, celebraram-se as festividades religiosas em honra a Nossa Senhora dos Remédios. A comunidade de Fundão do Cintra, área rural do distrito Santo Antonio do Salto, mesmo com o processo de restauração da capela em andamento, organizou e manteve o brilho da manifestação cultural.  

A tradição passada por meio da oralidade, de pais para filhos, incentiva as famílias locais a serem os principais agentes de organização e conservação da capela. São também os responsáveis pelas doações que ajudam a concretizar a festa, inclusive de cabelo, para ornar a imagem da santa. Essas ofertas para os fiéis superam a simples ideia de realizar a festa, mas possuem sentido devoção, de culto a Nossa Senhora dos Remédios, pois, estabelece uma relação de aproximação entre devoto e objeto de devoção, atitudes que demonstram agradecimento por graça alcançada ou pedido de intercessão por uma graça esperada.

A confecção de enfeites para a capela, para o caminho da procissão e para as bandeiras de Santo Antonio e Nossa Senhora dos Remédios, e até mesmo a reforma da Capela iniciada no ano passado, são exemplos de conservação do bem cultural, afinal, como eternizou Aluízio Magalhães, “a comunidade é a principal protetora de seu patrimônio”. Nessa perspectiva, lembramos que a Festa e a Capela são atualmente Patrimônio Cultural do Município de Ouro Preto; a primeira tornou-se bem imaterial registrado (2009), e a segunda, bem material tombado (2010). Desta forma, são acompanhadas com o intuito de diagnosticar possíveis problemas e se necessário estabelecer plano de ações de intervenção para salvaguarda do patrimônio cultural.

Sendo assim, acompanhamos as festividades deste ano e registramos através de fotografias o evento:

Oração do Terço na residência do Edivânio, local de envio das bandeiras de Santo Antonio e de Nossa senhora dos Remédios 

Procissão 

Chegada à Capela de Nossa Senhora dos Remédios para celebração da Santa Missa

Celebração da Missa na Capela

Bandeiras de Santo Antonio e Nossa Senhora dos Remédios

Coroação da imagem de Nossa Senhora dos Remédios

Imagem de Nossa Senhora dos Remédios após a coroação

Benção das bandeiras


Levantamento dos mastros com as bandeiras





sexta-feira, 27 de julho de 2012

FESTA DE SENHORA SAN'TANA E SÃO JOAQUIM

A Festa em louvor a Senhora Santana e São Joaquim ocorre em julho, se estendendo por cerca de cinco dias. Contudo, por volta de 15 dias antes da festa oficial iniciar-se, a imagem de Santana percorre as casas da comunidade como forma de preparação, ocorrendo a reza do terço e orações devocionais. Em seguida, acontece o tríduo preparatório, quando há uma caminhada conduzindo a imagem de Santana para a capela, celebrações eucarísticas, orações do terço, procissão da bandeira e a participação da comunidade e convidados. Durante os festejos,  missas são celebradas, como a missa dos enfermos, com benção especial a estes. No dia 26 de julho (dia consagrado a Santana) ocorre uma celebração solene e a procissão com as imagens de Santana e São Joaquim percorrendo as principais ruas da comunidade. 
Os organizadores da festa, que é a Irmandade de Sant'Ana, são responsáveis pela arrecadação de recursos para a realização da mesma, buscando patrocínios de empresas e doações da comunidade.




Convite da festa de Senhora Sant'Ana e São Joaquim - julho de 2010 - APMOP

FESTA DE SENHORA SAN'TANA E SÃO JOAQUIM

A Festa em louvor a Senhora Santana e São Joaquim ocorre em julho, se estendendo por cerca de cinco dias. Contudo, por volta de 15 dias antes da festa oficial iniciar-se, a imagem de Santana percorre as casas da comunidade como forma de preparação, ocorrendo a reza do terço e orações devocionais. Em seguida, acontece o tríduo preparatório, quando há uma caminhada conduzindo a imagem de Santana para a capela, celebrações eucarísticas, orações do terço, procissão da bandeira e a participação da comunidade e convidados. Durante os festejos,  missas são celebradas, como a missa dos enfermos, com benção especial a estes. No dia 26 de julho (dia consagrado a Santana) ocorre uma celebração solene e a procissão com as imagens de Santana e São Joaquim percorrendo as principais ruas da comunidade. 
Os organizadores da festa, que é a Irmandade de Sant'Ana, são responsáveis pela arrecadação de recursos para a realização da mesma, buscando patrocínios de empresas e doações da comunidade.




Convite da festa de Senhora Sant'Ana e São Joaquim - julho de 2010 - APMOP

segunda-feira, 23 de julho de 2012

FESTIVAIS EM RESSONÂNCIA


 Abordagens dadas pelos “Festivais de Inverno” ao conceito de “patrimônio cultural” em distintos contextos

Os patrimônios podem" (...) "exercer uma mediação entre os aspectos da cultura classificados como “herdados” por uma determinada coletividade humana e aqueles considerados como “adquiridos” ou “reconstruídos”, resultantes do permanente esforço no sentido do auto aperfeiçoamento individual e coletivo.” (GONÇALVES,  2005)

Recorte do Jornal do Brasil 31/02/71
Em 1971, 0 Festival de Inverno de Ouro Preto recebe patrocínio do MEC e promove “cursos de férias”. Abrindo campo então ao debate, observação e manifestação da categoria de patrimônio cultural e possibilitando experiências sobre a cultura mineira em sua autenticidade. Recebe apoio do ministério como reconhecimento de sua importância no âmbito nacional e tem na proposta “cursos de férias” que possibilitam ao sujeito atuar e apreender neste campo - o posicionando entre o ideal preservacionista e a possibilidade de atuação neste sentido.


Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972
Em 1972 a matéria do Jornal "O Ouro Preto" destaca a preocupação do Prefeito Dr. Benedito Gonçalves Xavier com a produção de pesquisa sobre o patrimônio material de Ouro Preto e demais cidade históricas de Minas Gerais. O mesmo jornal reserva grande parte da matéria às redescobertas de pontes, ruínas e peças sacras recuperadas. Ao entender do autor da matéria a cidade quando pesquisada sempre surpreenderá aos que se colocam a esta prática. O festival de inverno em 1971 ocorre assim em oncomitância ao III Encontro de Prefeitos, que irão debater turismo em Minas e no qual o Prefeito Dr. Benedito defenderá as políticas preservacionistas arraigadas à manutenção dos patrimônios materiais mineiros. No que tange a programação do festival deste ano destaca-se: A peça “Libertas Quae Sera Tamem” apresentada pelos alunos da escola técnica da UFMG; a peça “Aleijadinho, aqui e agora”  e os concertos realizados pelos alunos do festival.  Estes eventos e também o III Encontro de Prefeitos, dão a tônica à forma pela qual o patrimônio cultural é refletido pela comunidade mineira naquele momento. No contexto da cidade de Ouro Preto – e demais cidades históricas de Minas Gerais – uma ideia de patrimônio cultural dependente de um produto material do passado pode ser evidenciada nas políticas preservacionistas apresentadas no encontro de prefeitos, o que neste momento tornavam necessárias, pois esta cidade teve seu espaço material reconhecido como patrimônio nacional e passava por sérios problemas estruturais quanto a sua conservação. Assim a preservação das formas passadas possibilitaria serem trabalhadas no presente não apenas na sua representação na memória coletiva dos brasileiros, como também pelo empreendedorismo do turismo como possibilidade de produção de renda aos cidadãos e gestão dos seus patrimônios. As peças apresentadas então sobre temas – “Libertas Quae Sera Tamem” e “Aleijadinho, aqui e agora” - tão carregados de referenciais na memória coletiva dos mineiros denotam as maneiras como as novas abordagens dão a dinâmica às formas passadas.
Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972
A busca de estruturação e busca de ordenação racional do conceito de cultura em sua manifestação retomou a um problema epistemológico clássico aos acadêmicos que trabalham com este conceito durante o mesmo período. A incapacidade de delimitar a cultura em um objeto de forma estática, o que só é alcançado num plano ideal, não atingindo a manifestação real (SAHLINS, 1997). Logo a cultura material seria forma de se ter registro destas alterações como também possibilitaria abrir questões sobre o modo que estes materiais estão comunicando quando reconhecidos e interpretados como representação da memória coletiva (Duarte, Alice. Antropologia e museus: o museu como lugar de representação do outro.). Daí o discurso da matéria do Jornal “O Ouro Preto”, ainda que “idolatrando” o patrimônio material da cidade, fomenta a intangibilidade de suas formas o que sempre surpreende e surpreenderá quem o pesquisa em seu presente.

Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974
Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974
Dois anos depois, em 1974, o jornal O Ouro Preto anuncia o 8º Festival de Inverno como um programa bastante diferente “embora continue perseguindo os mesmo objetivos: a extensão e o turismo cultural nas cidades mineiras” e possibilitando a estudantes do Brasil e do exterior  a conhecer “o riquíssimo patrimônio cultural, estudando-o e debatendo os seus diversos aspectos”. Sob o tema “300 anos do ciclo do ouro e do diamante” o festival de 1974, com a programação cultural estendida a 18 cidades mineiras, cede espaços a diversos festivais de manifestações culturais como Festival de Corais, Festival Brasileiro de Teatro Amador, Festival de Dança além do III Encontro de Museus e II Seminário Nacional de Educação Artística. Tais festivais abrem campo para a experimentação, apresentação, debate e troca de experiências, indicando a dinâmica destas manifestações culturais que compõe o patrimônio cultural dos mineiros. O III Encontro de museus que integra a programação deste ano acentua um movimento de ganho de autonomia às certas instituições quanto à gestão do seu patrimônio material. Um movimento característico na década de 70 pelo qual a cultura material fora apreendida pela sua representação simbólica com o fim de que, ao interpretá-la, o expectador se identifique em relação à instituição que a expõe. Daí a necessidade do debate que fomente os problemas e possibilidades, ajustados ao contexto em que se expõe (idem.) A segunda edição do Seminário Nacional de Educação Artística ressalta o debate sobre a transmissão do saber sobre o patrimônio artístico pelo ensino das artes nas escolas do País. Logo, posta em debate, tal forma de transmissão tende a se ajustar as questões práticas do presente. 
Mantendo os minicursos e apresentações de concertos musicais, peças teatrais, exposições artísticas, destaca-se neste momento a apresentação de espetáculos folclóricos e de música popular como também as feiras livres de arte e artesanato. Estes últimos eventos ganham destaque, pois fertilizam o “campo” em que o festival ocorre com maior diversidade de formas culturais possibilitando a troca dos seus produtos culturais.



Folheto: 24º Festival de Inverno da UFMG. BH – Julho de 1992
Já em 1992 o festival de inverno trabalhará o conceito de patrimônio cultural aparentemente de maneira mais distante do que em seus primeiros momentos. Mas de fato ocorre a uma distância geográfica, os festivais de 1989 a 1992 foram realizados em Belo Horizonte e ajustando ao contexto nacional o evento de 1992 tratou do patrimônio cultural em proximidade ao patrimônio natural – visto a preocupação sobre a ecologia debatida neste mesmo ano na conferência Rio 92. O distanciamento, entre o que se entende como patrimônio cultural relacionado aos produtos humanos e o patrimônio natural é aparente já que o patrimônio cultural humano sempre esteve em dependência ao que o meio natural lhe oferece (MELLO, 1987) . A gestão de um patrimônio cultural está então intrigada à disposição das formas naturais. Logo, ganha destaque a produção artística ajustada à preocupação ecológica contemporânea.



Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004
Em 2004, o Festival de Inverno das cidades de Ouro Preto e Mariana é gerido pela pró-reitoria de extensão da Universidade de Ouro Preto, na forma inédita de fórum das artes. Aproximando organização ao contexto local aonde ocorre, o festival de inverno de 2004 deve nos servir como objeto de comparação entre sua abordagem sobre o patrimônio cultural e as abordagens dos primeiros festivais. Em entrevista à matéria “UFOP dá inicio ao seu ‘Fórum das Artes’”, publicada no Jornal Hoje em Dia em julho de 2004, o pró-reitor de extensão da UFOP, Nuno Santos Coelho destaca a gestão feita pela UFOP como autonomia local na organização do evento e também ajusta o foco na “discussão de temas de interesse no momento” sendo o tema “Patrimônio Cultural – Cidades”. O que aparenta estar muito próximo da proposta de 1972, em que as cidades históricas e seu potencial patrimonial ganhavam o centro das discussões, destoa na forma em que este conceito de patrimônio será abordado em 2004. Entre o encontro de prefeitos que integrou o festival de 1972 com a preocupação de preservação material do patrimônio das cidades mineiras e a “oficina-tema” sobre cartografia cultural de 2004, denota se a superação do conceito de patrimônio cultural em relação a suas representações apenas materiais – o que ocorre ao longo dos 32 anos de festivais. A ideia de cartografia cultural tende a observar a disposição das manifestações de cultura sobre o espaço físico não só pelos seus produtos materiais, mas também nas suas manifestações cotidianas. Logo, a categoria imaterial do conceito de patrimônio cultural é posta em voga efetivamente no festival, sendo tema de oficinas e debates mais incisivos. Quanto à transmissão das formas culturais, há em 2004 uma maior autonomia nas apresentações de teor populares e locais, revelando a valoração das formas de cultura tidas como popular que buscam autenticidade e reconhecimento no campo cultural em que manifestam. Esta valoração, que aparenta ter começado a ser fomentada desde o festival 74, pode ser entendida como constante apropriação de novas formas – que garantem a um grupo cultural, na contemporaneidade, melhor comunicação e a reafirmação sua identidade num jogo de autenticidade (individual/singular) e reconhecimento coletivo (MIRA, 2004). Daí destaca-se na programação do festival de 2004 os grupos mineiros Uakti e Galpão que ganham espaço tanto para apresentação quanto para produção nas oficinas.
Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004
Como relevou o pró-reitor de extensão Nuno Santos o “festival não pretende ser apenas um produto de consumo imediato”, mas não só o festival 2004, todos os outros podem ser apreendidos como um campo em que a cultura enquanto categoria de patrimônio não é digerida de imediato como também não é apenas posta à digestão sendo constantemente relacionada às formas e abordagens de cada contexto em que ocorre.
 Há de se destacar então que em todos os momentos o Festival de Inverno foi também espaço para absorção de grande diversidade de referenciais culturais contando com apresentações de outras regiões do país e até internacionais. E isto fez com que ao longo dos anos a categoria de patrimônio cultural relevasse também valores adquiridos e reconstruídos o que, como citado ao inicio do texto, são resultados “do permanente esforço no sentido do auto aperfeiçoamento individual e coletivo.” (GONÇALVES, 2005).

 

Referencias:
Duarte, Alice. Antropologia e museus: o museu como lugar de representação do outro. In: Revista Antropológicas, n.º 2, 1998.
GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetividade: As culturas como patrimônios. In: Revista Horizonte antropológico vol.11 no.23 Porto Alegre Jan./June 2005.
MELLO, Luiz Gonzaga de. Cultura: Funcionamento e Mudança. In: Antropologia Cultural: iniciação, teorias e temas. Petrópolis, Vozes, 1987. Pp.80 – 126
MIRA, Maria Celeste. O global e o local: mídia identidades e usos da cultura. Margem. São Paulo: Faculdade de Ciências Sociais / PUC, nº3, p.131-149, dez. 2004.
SAHLINS, Marshall. O “pessimismo sentimental” e a experiência etnográfica: Por que a cultura não é um “objeto” em via de extinção In: Revista Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro Abril. 1997

Fontes: 
Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004.
Folheto: 24º Festival de Inverno da UFMG. BH – Julho de 1992.
Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974.
Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972.
Recorte do Jornal do Brasil 31/02/71.

FESTIVAIS EM RESSONÂNCIA


 Abordagens dadas pelos “Festivais de Inverno” ao conceito de “patrimônio cultural” em distintos contextos

Os patrimônios podem" (...) "exercer uma mediação entre os aspectos da cultura classificados como “herdados” por uma determinada coletividade humana e aqueles considerados como “adquiridos” ou “reconstruídos”, resultantes do permanente esforço no sentido do auto aperfeiçoamento individual e coletivo.” (GONÇALVES,  2005)

Recorte do Jornal do Brasil 31/02/71
Em 1971, 0 Festival de Inverno de Ouro Preto recebe patrocínio do MEC e promove “cursos de férias”. Abrindo campo então ao debate, observação e manifestação da categoria de patrimônio cultural e possibilitando experiências sobre a cultura mineira em sua autenticidade. Recebe apoio do ministério como reconhecimento de sua importância no âmbito nacional e tem na proposta “cursos de férias” que possibilitam ao sujeito atuar e apreender neste campo - o posicionando entre o ideal preservacionista e a possibilidade de atuação neste sentido.


Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972
Em 1972 a matéria do Jornal "O Ouro Preto" destaca a preocupação do Prefeito Dr. Benedito Gonçalves Xavier com a produção de pesquisa sobre o patrimônio material de Ouro Preto e demais cidade históricas de Minas Gerais. O mesmo jornal reserva grande parte da matéria às redescobertas de pontes, ruínas e peças sacras recuperadas. Ao entender do autor da matéria a cidade quando pesquisada sempre surpreenderá aos que se colocam a esta prática. O festival de inverno em 1971 ocorre assim em oncomitância ao III Encontro de Prefeitos, que irão debater turismo em Minas e no qual o Prefeito Dr. Benedito defenderá as políticas preservacionistas arraigadas à manutenção dos patrimônios materiais mineiros. No que tange a programação do festival deste ano destaca-se: A peça “Libertas Quae Sera Tamem” apresentada pelos alunos da escola técnica da UFMG; a peça “Aleijadinho, aqui e agora”  e os concertos realizados pelos alunos do festival.  Estes eventos e também o III Encontro de Prefeitos, dão a tônica à forma pela qual o patrimônio cultural é refletido pela comunidade mineira naquele momento. No contexto da cidade de Ouro Preto – e demais cidades históricas de Minas Gerais – uma ideia de patrimônio cultural dependente de um produto material do passado pode ser evidenciada nas políticas preservacionistas apresentadas no encontro de prefeitos, o que neste momento tornavam necessárias, pois esta cidade teve seu espaço material reconhecido como patrimônio nacional e passava por sérios problemas estruturais quanto a sua conservação. Assim a preservação das formas passadas possibilitaria serem trabalhadas no presente não apenas na sua representação na memória coletiva dos brasileiros, como também pelo empreendedorismo do turismo como possibilidade de produção de renda aos cidadãos e gestão dos seus patrimônios. As peças apresentadas então sobre temas – “Libertas Quae Sera Tamem” e “Aleijadinho, aqui e agora” - tão carregados de referenciais na memória coletiva dos mineiros denotam as maneiras como as novas abordagens dão a dinâmica às formas passadas.
Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972
A busca de estruturação e busca de ordenação racional do conceito de cultura em sua manifestação retomou a um problema epistemológico clássico aos acadêmicos que trabalham com este conceito durante o mesmo período. A incapacidade de delimitar a cultura em um objeto de forma estática, o que só é alcançado num plano ideal, não atingindo a manifestação real (SAHLINS, 1997). Logo a cultura material seria forma de se ter registro destas alterações como também possibilitaria abrir questões sobre o modo que estes materiais estão comunicando quando reconhecidos e interpretados como representação da memória coletiva (Duarte, Alice. Antropologia e museus: o museu como lugar de representação do outro.). Daí o discurso da matéria do Jornal “O Ouro Preto”, ainda que “idolatrando” o patrimônio material da cidade, fomenta a intangibilidade de suas formas o que sempre surpreende e surpreenderá quem o pesquisa em seu presente.

Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974
Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974
Dois anos depois, em 1974, o jornal O Ouro Preto anuncia o 8º Festival de Inverno como um programa bastante diferente “embora continue perseguindo os mesmo objetivos: a extensão e o turismo cultural nas cidades mineiras” e possibilitando a estudantes do Brasil e do exterior  a conhecer “o riquíssimo patrimônio cultural, estudando-o e debatendo os seus diversos aspectos”. Sob o tema “300 anos do ciclo do ouro e do diamante” o festival de 1974, com a programação cultural estendida a 18 cidades mineiras, cede espaços a diversos festivais de manifestações culturais como Festival de Corais, Festival Brasileiro de Teatro Amador, Festival de Dança além do III Encontro de Museus e II Seminário Nacional de Educação Artística. Tais festivais abrem campo para a experimentação, apresentação, debate e troca de experiências, indicando a dinâmica destas manifestações culturais que compõe o patrimônio cultural dos mineiros. O III Encontro de museus que integra a programação deste ano acentua um movimento de ganho de autonomia às certas instituições quanto à gestão do seu patrimônio material. Um movimento característico na década de 70 pelo qual a cultura material fora apreendida pela sua representação simbólica com o fim de que, ao interpretá-la, o expectador se identifique em relação à instituição que a expõe. Daí a necessidade do debate que fomente os problemas e possibilidades, ajustados ao contexto em que se expõe (idem.) A segunda edição do Seminário Nacional de Educação Artística ressalta o debate sobre a transmissão do saber sobre o patrimônio artístico pelo ensino das artes nas escolas do País. Logo, posta em debate, tal forma de transmissão tende a se ajustar as questões práticas do presente. 
Mantendo os minicursos e apresentações de concertos musicais, peças teatrais, exposições artísticas, destaca-se neste momento a apresentação de espetáculos folclóricos e de música popular como também as feiras livres de arte e artesanato. Estes últimos eventos ganham destaque, pois fertilizam o “campo” em que o festival ocorre com maior diversidade de formas culturais possibilitando a troca dos seus produtos culturais.



Folheto: 24º Festival de Inverno da UFMG. BH – Julho de 1992
Já em 1992 o festival de inverno trabalhará o conceito de patrimônio cultural aparentemente de maneira mais distante do que em seus primeiros momentos. Mas de fato ocorre a uma distância geográfica, os festivais de 1989 a 1992 foram realizados em Belo Horizonte e ajustando ao contexto nacional o evento de 1992 tratou do patrimônio cultural em proximidade ao patrimônio natural – visto a preocupação sobre a ecologia debatida neste mesmo ano na conferência Rio 92. O distanciamento, entre o que se entende como patrimônio cultural relacionado aos produtos humanos e o patrimônio natural é aparente já que o patrimônio cultural humano sempre esteve em dependência ao que o meio natural lhe oferece (MELLO, 1987) . A gestão de um patrimônio cultural está então intrigada à disposição das formas naturais. Logo, ganha destaque a produção artística ajustada à preocupação ecológica contemporânea.



Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004
Em 2004, o Festival de Inverno das cidades de Ouro Preto e Mariana é gerido pela pró-reitoria de extensão da Universidade de Ouro Preto, na forma inédita de fórum das artes. Aproximando organização ao contexto local aonde ocorre, o festival de inverno de 2004 deve nos servir como objeto de comparação entre sua abordagem sobre o patrimônio cultural e as abordagens dos primeiros festivais. Em entrevista à matéria “UFOP dá inicio ao seu ‘Fórum das Artes’”, publicada no Jornal Hoje em Dia em julho de 2004, o pró-reitor de extensão da UFOP, Nuno Santos Coelho destaca a gestão feita pela UFOP como autonomia local na organização do evento e também ajusta o foco na “discussão de temas de interesse no momento” sendo o tema “Patrimônio Cultural – Cidades”. O que aparenta estar muito próximo da proposta de 1972, em que as cidades históricas e seu potencial patrimonial ganhavam o centro das discussões, destoa na forma em que este conceito de patrimônio será abordado em 2004. Entre o encontro de prefeitos que integrou o festival de 1972 com a preocupação de preservação material do patrimônio das cidades mineiras e a “oficina-tema” sobre cartografia cultural de 2004, denota se a superação do conceito de patrimônio cultural em relação a suas representações apenas materiais – o que ocorre ao longo dos 32 anos de festivais. A ideia de cartografia cultural tende a observar a disposição das manifestações de cultura sobre o espaço físico não só pelos seus produtos materiais, mas também nas suas manifestações cotidianas. Logo, a categoria imaterial do conceito de patrimônio cultural é posta em voga efetivamente no festival, sendo tema de oficinas e debates mais incisivos. Quanto à transmissão das formas culturais, há em 2004 uma maior autonomia nas apresentações de teor populares e locais, revelando a valoração das formas de cultura tidas como popular que buscam autenticidade e reconhecimento no campo cultural em que manifestam. Esta valoração, que aparenta ter começado a ser fomentada desde o festival 74, pode ser entendida como constante apropriação de novas formas – que garantem a um grupo cultural, na contemporaneidade, melhor comunicação e a reafirmação sua identidade num jogo de autenticidade (individual/singular) e reconhecimento coletivo (MIRA, 2004). Daí destaca-se na programação do festival de 2004 os grupos mineiros Uakti e Galpão que ganham espaço tanto para apresentação quanto para produção nas oficinas.
Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004
Como relevou o pró-reitor de extensão Nuno Santos o “festival não pretende ser apenas um produto de consumo imediato”, mas não só o festival 2004, todos os outros podem ser apreendidos como um campo em que a cultura enquanto categoria de patrimônio não é digerida de imediato como também não é apenas posta à digestão sendo constantemente relacionada às formas e abordagens de cada contexto em que ocorre.
 Há de se destacar então que em todos os momentos o Festival de Inverno foi também espaço para absorção de grande diversidade de referenciais culturais contando com apresentações de outras regiões do país e até internacionais. E isto fez com que ao longo dos anos a categoria de patrimônio cultural relevasse também valores adquiridos e reconstruídos o que, como citado ao inicio do texto, são resultados “do permanente esforço no sentido do auto aperfeiçoamento individual e coletivo.” (GONÇALVES, 2005).

 

Referencias:
Duarte, Alice. Antropologia e museus: o museu como lugar de representação do outro. In: Revista Antropológicas, n.º 2, 1998.
GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetividade: As culturas como patrimônios. In: Revista Horizonte antropológico vol.11 no.23 Porto Alegre Jan./June 2005.
MELLO, Luiz Gonzaga de. Cultura: Funcionamento e Mudança. In: Antropologia Cultural: iniciação, teorias e temas. Petrópolis, Vozes, 1987. Pp.80 – 126
MIRA, Maria Celeste. O global e o local: mídia identidades e usos da cultura. Margem. São Paulo: Faculdade de Ciências Sociais / PUC, nº3, p.131-149, dez. 2004.
SAHLINS, Marshall. O “pessimismo sentimental” e a experiência etnográfica: Por que a cultura não é um “objeto” em via de extinção In: Revista Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro Abril. 1997

Fontes: 
Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte julho de 2004.
Folheto: 24º Festival de Inverno da UFMG. BH – Julho de 1992.
Jornal O Ouro Preto, 15 de Maio de 1974.
Jornal “O Ouro Preto” 20/07/1972.
Recorte do Jornal do Brasil 31/02/71.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Inventário dos Fazeres - Amendoas


 As celebrações e encenações religiosas na forma dos atos públicos no Brasil aparecem como tradição festiva, por assim dizer, herdada da tradição ibérico-cristã e que no contexto colonial aderiu a uma diversidade simbólica, traçando suas peculiaridades[1]. No presente, essas celebrações e encenações podem ser ressaltadas como expressões culturais nas quais, dentre outras formas, se manifesta a cultura religiosa deste país. Logo, conjuntos de elementos assumem significados específicos dentro do rito - como as representações litúrgicas - tendo um caráter funcional de comunicar o que é narrado. Porém, outros elementos são aderidos, sem o sentido inicial de representar algo dentro do rito, e sim no sentido de sustentação do mesmo e que, no decorrer do tempo, foram tomando significados para aqueles que participam ativamente da ostentação da celebração. A comida compartilhada pelos agentes da celebração por vezes aparece como parte integrante do rito no sentido de gratidão e retribuição à entidade divina, como também no sentido de gratificação – com grande valor simbólico – pelo trabalho no mesmo. As guloseimas e doces aparecem como esta forma de “dádiva” pela celebração ou encenação[2]. Segundo Célia Lucena:
 “Em todas as sociedades tradicionais as dádivas feitas sob forma de comida têm um papel de grande importância para estabelecer e reforçar laços de comensalidade.” [3]
Nas celebrações públicas no Brasil, como exemplo no Rio de Janeiro a partir do século XVII e de Vila Rica/Ouro Preto nos séculos seguintes[4], as balinhas de amêndoas ocupam esta dadivosa posição participando na vida coletiva destas cidades como símbolo da gratificação àqueles que atuam de alguma forma nas celebrações e encenações. Na Semana Santa – celebrada com grande atuação pública, contando com várias procissões e encenações dos fatos relevantes à pascoa cristã – a distribuição destas balinhas, prática herdada da tradição ibérico-cristã[5], permanece bem adaptada à esta celebração em Ouro Preto.

Em 1749 a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos – irmandade responsável por alguns atos litúrgicos e para-litúrgicos, como a Procissão de Passos e do Encontro, Sermões do Encontro e do Calvário, neste período – registrou no seu livro de Receitas e Despesas o gasto de 5 oitavas de ouro por 20 libras amêndoas para os anjos nos dias de procissão[6].
Mais de cem anos após, em abril de 1868, a mesma Irmandade pagou 55:000 (cinquenta e cinto mil réis) a Carlota Ferreira de Araújo por quatro arroubas e quatro libras de amêndoas[7](figura 1).
Figura 1: Recibo, APMOP (Arquivo Público Municipal de Ouro Preto). Fundo: CMOP1; Série: Fazenda; Subsérie: Comprobatórios de Receita e despesas, datas limites: 1800-1879.
Atualmente a responsável por este fazer em Ouro Preto é Dona Nadir Angelina Correa Magalhães (figura 2), que revela em entrevista não só como se da a relação desta produção com as festas sacras, mas também como desenvolve este fazer no presente. Segundo a mesma, aprendeu a produzir as balinhas há mais de cinquenta anos a partir da experiência da sua irmã mais velha Eunice, e desde então passaram a produzir, em família, as balas de amêndoas, que são distribuídas durante as celebrações de semana santa. Mas a produção de amêndoas não ocorre como exclusividade desta celebração, Dona Nadir e suas irmãs Vera Lúcia e Eunice, como também suas ajudantes Maria Benância e Jandira, trabalham como doceiras e salgadeiras, e dizem que também “está sendo muito procurado (...) para evento, às vezes (...) pra um batizado (...) um casamento...” [8], logo também produzem as balinhas sob encomendas de celebrações familiares.
Figura 2 : Dona Nadir e Maria Benância

Quanto à relação com a semana santa, as balinhas são encomendadas pela paróquia que paga pelos ingredientes e mais pelo serviço prestado pelas doceiras. As balas são então distribuídas por representantes paroquiais às crianças que representam os apóstolos no “Lava-pés”, na quinta-feira santa; às figuras bíblicas que participam do Descendimento da Cruz, na sexta-feira santa; e na procissão da Ressurreição, no Domingo de Páscoa, além de anjinhos, corporações musicais e irmandades. Estes cartuchos são cones de papel que embrulham as porções de balinhas. Dona Nadir revela que os maiores cones, logo as maiores porções, são entregues às crianças que representam os apóstolos na Celebração do lava-Pés.  
Figura 3 : Temperos
As balinhas são produzidas, como demonstra Dona Nadir na entrevista, a partir da calda que é formada pelo açúcar levado ao fogo no tacho de cobre purificado no leite de vaca. Mantida a calda no tacho em alta temperatura, é então misturada de um jeito cuidadoso, enquanto vão sendo adicionados os outros ingredientes como chocolate-em-pó, amendoim ou coco; e os temperos erva-doce, cravo e canela (Figura 3).  Desta forma vão se formando torrões brancos e esféricos aglomerados ao coco ou amendoim, com os sabores e aromas dos temperos. Estes torrões são formados em diferentes tamanhos sendo: os farelos e partes menores, as médias e as maiores; que vão compor o cartucho respectivamente no fundo, no meio e na parte superior. Assim vão se adaptando melhor ao formato conífero do cartucho, dando sua consistência.
Para se chegar neste modo de fazer, foi preciso uma série de experiências por parte de D. Eunice, partindo de uma primeira tentativa em uma caçarola de ferro no fogão a lenha até a utilização dos tachos de cobre, que segundo Nadir “aguenta mais o calor” [9], aquecidos com brasas de carvão nas fornalhas que sustentam cada um deles (figura 4). Para elas não há um segredo, ou pelo menos a receita não é um segredo, dizem que só aprenderam a produzir as balinhas “colocando a mão na massa” [10], ou seja, submetendo à experiência a combinação dos ingredientes. Isto denota então o valor empírico do conhecimento que elas desenvolveram para chegar ao modo de fazer utilizado no presente.
Figura 4: Maria Benância mexendo as amêndoas no tacho de cobre sobre a fornalha.
Além da Semana Santa, em Ouro Preto, as amêndoas estão também presentes em outros festejos religiosos, como a festa de Santo Amaro, em Botafogo, e de São Gonçalo, em Amarantina. Há ainda no município outras doceiras que conhecem esse saber-fazer, sendo agentes diretos dessa prática reproduzida atualmente como marca dos eventos em que são, além de consumidos, integrados à celebração.


[1] TINHORÃO José R., As Festas no Brasil Colonial, São Paulo, Editora 34, 2000.
[2]LUCENA, Cecília T.; SOUZA, Maria Christina S. de,  Comida em festa: cozinheiros, doceiras e festeiros In: Práticas e representações. [Orgs.] LUCENA, Cecília T.; SOUZA, Maria Christina S. São Paulo; Humanitas/CERU, 2008. Pp. 177-196.
[3] Ibdem, p.183.
[4] SANTOS, Georgina. Páscoa, tempo de festa In: Revista de História da Biblioteca Nacional, Edição nº 43 - Abril de 2009, Rio de Janeiro; Biblioteca Nacional. P. 2 Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/pascoa-tempo-de-festa
[5] Idem.
[6]Livro de Receita e Despesas da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, Arquivo Paróquia de Nossa Senhora do Pilar – Casa dos Contos (APSNP), microfilme, rolo 102/0001-0115, vol. 0393.
[7]Recibo, APMOP (Arquivo Público Municipal de Ouro Preto). Fundo: CMOP1; Série: Fazenda; Subsérie: Comprobatórios de Receita e despesas, datas limites: 1800-1879.
[8]Entrevista com Nadir Angelina Corrêa Magalhães 25 min. Ouro Preto; Alessandro Magno de Jesus e Vanessa Pereira Silva; 26/03/2012. Acervo da Prefeituira Municipal de Ouro Preto. Inventário de Proteção do Acervo Cultulral – ICMS 2013.
[9] Idem.
[10] Idem.

Inventário dos Fazeres - Amendoas


 As celebrações e encenações religiosas na forma dos atos públicos no Brasil aparecem como tradição festiva, por assim dizer, herdada da tradição ibérico-cristã e que no contexto colonial aderiu a uma diversidade simbólica, traçando suas peculiaridades[1]. No presente, essas celebrações e encenações podem ser ressaltadas como expressões culturais nas quais, dentre outras formas, se manifesta a cultura religiosa deste país. Logo, conjuntos de elementos assumem significados específicos dentro do rito - como as representações litúrgicas - tendo um caráter funcional de comunicar o que é narrado. Porém, outros elementos são aderidos, sem o sentido inicial de representar algo dentro do rito, e sim no sentido de sustentação do mesmo e que, no decorrer do tempo, foram tomando significados para aqueles que participam ativamente da ostentação da celebração. A comida compartilhada pelos agentes da celebração por vezes aparece como parte integrante do rito no sentido de gratidão e retribuição à entidade divina, como também no sentido de gratificação – com grande valor simbólico – pelo trabalho no mesmo. As guloseimas e doces aparecem como esta forma de “dádiva” pela celebração ou encenação[2]. Segundo Célia Lucena:
 “Em todas as sociedades tradicionais as dádivas feitas sob forma de comida têm um papel de grande importância para estabelecer e reforçar laços de comensalidade.” [3]
Nas celebrações públicas no Brasil, como exemplo no Rio de Janeiro a partir do século XVII e de Vila Rica/Ouro Preto nos séculos seguintes[4], as balinhas de amêndoas ocupam esta dadivosa posição participando na vida coletiva destas cidades como símbolo da gratificação àqueles que atuam de alguma forma nas celebrações e encenações. Na Semana Santa – celebrada com grande atuação pública, contando com várias procissões e encenações dos fatos relevantes à pascoa cristã – a distribuição destas balinhas, prática herdada da tradição ibérico-cristã[5], permanece bem adaptada à esta celebração em Ouro Preto.

Em 1749 a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos – irmandade responsável por alguns atos litúrgicos e para-litúrgicos, como a Procissão de Passos e do Encontro, Sermões do Encontro e do Calvário, neste período – registrou no seu livro de Receitas e Despesas o gasto de 5 oitavas de ouro por 20 libras amêndoas para os anjos nos dias de procissão[6].
Mais de cem anos após, em abril de 1868, a mesma Irmandade pagou 55:000 (cinquenta e cinto mil réis) a Carlota Ferreira de Araújo por quatro arroubas e quatro libras de amêndoas[7] (figura 1).
Figura 1: Recibo, APMOP (Arquivo Público Municipal de Ouro Preto). Fundo: CMOP1; Série: Fazenda; Subsérie: Comprobatórios de Receita e despesas, datas limites: 1800-1879.
Atualmente a responsável por este fazer em Ouro Preto é Dona Nadir Angelina Correa Magalhães (figura 2), que revela em entrevista não só como se da a relação desta produção com as festas sacras, mas também como desenvolve este fazer no presente. Segundo a mesma, aprendeu a produzir as balinhas há mais de cinquenta anos a partir da experiência da sua irmã mais velha Eunice, e desde então passaram a produzir, em família, as balas de amêndoas, que são distribuídas durante as celebrações de semana santa. Mas a produção de amêndoas não ocorre como exclusividade desta celebração, Dona Nadir e suas irmãs Vera Lúcia e Eunice, como também suas ajudantes Maria Benância e Jandira, trabalham como doceiras e salgadeiras, e dizem que também “está sendo muito procurado (...) para evento, às vezes (...) pra um batizado (...) um casamento...” [8], logo também produzem as balinhas sob encomendas de celebrações familiares.
Figura 2 : Dona Nadir e Maria Benância

Quanto à relação com a semana santa, as balinhas são encomendadas pela paróquia que paga pelos ingredientes e mais pelo serviço prestado pelas doceiras. As balas são então distribuídas por representantes paroquiais às crianças que representam os apóstolos no “Lava-pés”, na quinta-feira santa; às figuras bíblicas que participam do Descendimento da Cruz, na sexta-feira santa; e na procissão da Ressurreição, no Domingo de Páscoa, além de anjinhos, corporações musicais e irmandades. Estes cartuchos são cones de papel que embrulham as porções de balinhas. Dona Nadir revela que os maiores cones, logo as maiores porções, são entregues às crianças que representam os apóstolos na Celebração do lava-Pés.  
Figura 3 : Temperos
As balinhas são produzidas, como demonstra Dona Nadir na entrevista, a partir da calda que é formada pelo açúcar levado ao fogo no tacho de cobre purificado no leite de vaca. Mantida a calda no tacho em alta temperatura, é então misturada de um jeito cuidadoso, enquanto vão sendo adicionados os outros ingredientes como chocolate-em-pó, amendoim ou coco; e os temperos erva-doce, cravo e canela (Figura 3).  Desta forma vão se formando torrões brancos e esféricos aglomerados ao coco ou amendoim, com os sabores e aromas dos temperos. Estes torrões são formados em diferentes tamanhos sendo: os farelos e partes menores, as médias e as maiores; que vão compor o cartucho respectivamente no fundo, no meio e na parte superior. Assim vão se adaptando melhor ao formato conífero do cartucho, dando sua consistência.
Para se chegar neste modo de fazer, foi preciso uma série de experiências por parte de D. Eunice, partindo de uma primeira tentativa em uma caçarola de ferro no fogão a lenha até a utilização dos tachos de cobre, que segundo Nadir “aguenta mais o calor” [9], aquecidos com brasas de carvão nas fornalhas que sustentam cada um deles (figura 4). Para elas não há um segredo, ou pelo menos a receita não é um segredo, dizem que só aprenderam a produzir as balinhas “colocando a mão na massa” [10], ou seja, submetendo à experiência a combinação dos ingredientes. Isto denota então o valor empírico do conhecimento que elas desenvolveram para chegar ao modo de fazer utilizado no presente.
Figura 4: Maria Benância mexendo as amêndoas no tacho de cobre sobre a fornalha.
Além da Semana Santa, em Ouro Preto, as amêndoas estão também presentes em outros festejos religiosos, como a festa de Santo Amaro, em Botafogo, e de São Gonçalo, em Amarantina. Há ainda no município outras doceiras que conhecem esse saber-fazer, sendo agentes diretos dessa prática reproduzida atualmente como marca dos eventos em que são, além de consumidos, integrados à celebração.


[1] TINHORÃO José R., As Festas no Brasil Colonial, São Paulo, Editora 34, 2000.
[2] LUCENA, Cecília T.; SOUZA, Maria Christina S. de,  Comida em festa: cozinheiros, doceiras e festeiros In: Práticas e representações. [Orgs.] LUCENA, Cecília T.; SOUZA, Maria Christina S. São Paulo; Humanitas/CERU, 2008. Pp. 177-196.
[3] Ibdem, p.183.
[4] SANTOS, Georgina. Páscoa, tempo de festa In: Revista de História da Biblioteca Nacional, Edição nº 43 - Abril de 2009, Rio de Janeiro; Biblioteca Nacional. P. 2 Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/pascoa-tempo-de-festa
[5] Idem.
[6] Livro de Receita e Despesas da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, Arquivo Paróquia de Nossa Senhora do Pilar – Casa dos Contos (APSNP), microfilme, rolo 102/0001-0115, vol. 0393.
[7] Recibo, APMOP (Arquivo Público Municipal de Ouro Preto). Fundo: CMOP1; Série: Fazenda; Subsérie: Comprobatórios de Receita e despesas, datas limites: 1800-1879.
[8] Entrevista com Nadir Angelina Corrêa Magalhães 25 min. Ouro Preto; Alessandro Magno de Jesus e Vanessa Pereira Silva; 26/03/2012. Acervo da Prefeituira Municipal de Ouro Preto. Inventário de Proteção do Acervo Cultulral – ICMS 2013.
[9] Idem.
[10] Idem.